
Calor. Talvez um verão ou quase verão. Barulho. Um quase artesanato. Doces tradicionais, uma espécie de feira, uma espécie de festa.
Talvez luzes, talvez pipocas. Conversas ou quase conversas.
- Gostas deste?
- Como está?
- Anda daí!
- Está quieto!
- António!
- Três peças, cinco euros!
- E mais uma volta!
- Um lugar vazio! Ainda um lugar vazio! Quem arrisca?
- Sai daí Fernando!
- Não mexas!
- Sai sempre prémio! Sai sempre prémio!
- Gostas deste?
- Como está?
- Anda daí!
- Está quieto!
- António!
- Três peças, cinco euros!
- E mais uma volta!
- Um lugar vazio! Ainda um lugar vazio! Quem arrisca?
- Sai daí Fernando!
- Não mexas!
- Sai sempre prémio! Sai sempre prémio!
E o cão que ladra, e o calor. O cheiro das pipocas, o algodão doce. A maçã do amor.
Os bolos tradicionais da dona Laurinda, e as luzes a apagar, a acender e a piscar, a apagar, a acender e a piscar, a apagar, a acender, e a piscar… E as luzes confusas na minha cabeça.
A mulher. Saltos altos, calças justas. Cabelo preto e um carrinho de bebé.
- Oh amore! Olha a branca more. A branca é que é, não é?
O homem, de costas voltado, encolhe os ombros e anda.
- Oh amore, já viste a branca? Tão linda...
Os bolos tradicionais da dona Laurinda, e as luzes a apagar, a acender e a piscar, a apagar, a acender e a piscar, a apagar, a acender, e a piscar… E as luzes confusas na minha cabeça.
A mulher. Saltos altos, calças justas. Cabelo preto e um carrinho de bebé.
- Oh amore! Olha a branca more. A branca é que é, não é?
O homem, de costas voltado, encolhe os ombros e anda.
- Oh amore, já viste a branca? Tão linda...
O homem não ouve, não para. A mulher desiste. Segura no carrinho do bebé, continua.
Outro homem. Sozinho. Uma mesa branca. Gente parada. Óculos de sol.
- Ela deixou-me aquela filha da ... Pode experimentar. Fiquei muito mal. Mas já estou curado. Leve! Pode levar! Filha da … Deixou-me. Mas já estou curado! Foi uma filha da … Esses são a 10 euros. Fez-me muito mal. Mas já me curei. Pode levar! Pode levar tudo!
E as pessoas continuavam. E as pessoas paradas continuavam. Mexiam nos óculos, coçavam a cabeça, olhavam à volta. Levavam, experimentavam, mas não ouviam.
- Filha da … já me curei! Ouvistes?!, já me currrreeeeeiiiii…
- Ela deixou-me aquela filha da ... Pode experimentar. Fiquei muito mal. Mas já estou curado. Leve! Pode levar! Filha da … Deixou-me. Mas já estou curado! Foi uma filha da … Esses são a 10 euros. Fez-me muito mal. Mas já me curei. Pode levar! Pode levar tudo!
E as pessoas continuavam. E as pessoas paradas continuavam. Mexiam nos óculos, coçavam a cabeça, olhavam à volta. Levavam, experimentavam, mas não ouviam.
- Filha da … já me curei! Ouvistes?!, já me currrreeeeeiiiii…
“Não nos responsabilizamos por danos e perdas. Agradece-se que retirem objectos valiosos do bolso. Não usem cachecóis. Não se aconselha a menores de 10 anos, não se aconselha a alcoolizados, não se aconselha a pessoas com problemas psíquicos, não se aconselha a pessoas com problemas cardíacos, não se aconselha.”
A cabeça a girar, as pipocas a girar, as luzes a girar, e a banda a tocar. A banda filarmónica, no coreto, no carreto, não sei onde, em que parte da minha memória.
- Olha! A banda vai passar! Corre!
E eu corria, corria o mais que podia pelo corredor que não tinha fim, pela varanda, de corrimão preto. Um pé em cima da grade e a minha cabecita pendurada. Os bombos e os pratos. As trompetas e os trompetes. Era dia de festa, ou dia de ensaio. Sempre domingo de manhã, sempre antes do almoço. E a banda tocava, e eu espreitava por cima do corrimão. E os segundos sorriam-me os dias de calor.
- Mãe, a banda não parou. A banda foi muito rápida.
E os segundos entristeciam-se no corrimão preto da minha varanda.
Mas ontem era dia de festa, e havia rifas. Toda a gente sabe o que querem dizer rifas, e calor, e luzes e pipocas a girar.
.
- bchbchbch bchbch
- Olha ele está a vir.
- Sim, deve ter dono.
- É macio.
E mais uma mão, uma mão pequenina, tomou conta do gato.
- Gatinho, queres vir comigo?
E o pai virou costas, encolheu os ombros, e andou.
- Queres vir comigo?
A mãe não viu, a avó sorriu, deu três passos e parou.
O pai bufou. A mãe impacientou-se. A avó mancou.
- Anda dai! Deixa lá o bicho.
E nós parados. E nós confusos. E nós perdidos, entre o aqui e o que foi.
O gato, o menino, as luzes a piscar, as pipocas a girar.
E a cabeça confusa.
- Queres vir comigo?
- Olha ele está a vir.
- Sim, deve ter dono.
- É macio.
E mais uma mão, uma mão pequenina, tomou conta do gato.
- Gatinho, queres vir comigo?
E o pai virou costas, encolheu os ombros, e andou.
- Queres vir comigo?
A mãe não viu, a avó sorriu, deu três passos e parou.
O pai bufou. A mãe impacientou-se. A avó mancou.
- Anda dai! Deixa lá o bicho.
E nós parados. E nós confusos. E nós perdidos, entre o aqui e o que foi.
O gato, o menino, as luzes a piscar, as pipocas a girar.
E a cabeça confusa.
- Queres vir comigo?